O trabalho é uma ferramenta para nossa felicidade

 

 

Fim do Carnaval, bem-vindo 2019. Oficialmente. Vamos começar conversando sobre trabalho, então? Mas, para isso, é necessário falar de felicidade primeiro. Dia desses li que ela é algo artesanal, feita por nossas próprias mãos e, por isso, não é um estado ou pré-requisito para que as coisas aconteçam em nossa vida como muitos imaginam. Faz sentido, afinal construímos nossa felicidade com base no que é significativo e importante para nós. E como fazer isso? Trabalhando!  Eis aí a importância de se encarar o trabalho como uma ferramenta e não um fim, porque dessa produzimos com mais motivação e propósito. Mas como assim, e ferramenta para o quê?  

Acontece que o trabalhar, a atividade em si, não se reduz a uma função ou a um emprego; essas são formas mais burocráticas, econômicas e impessoais de dar nome a uma atividade, medir o tempo dedicado a ela e entender de uma forma, bem simplista até, seu objetivo com base no que ele beneficia e contribui com outros. Já o trabalhar tem mais intimidade com o que acreditamos, com os desafios que nos estabelecemos por sabermos que irão nos agregar e transformar. Podemos até ousar mais e dizer que é um meio de comunicar nossa identidade ao mundo. Não, não é romantismo sabe por quê? Se não enxergamos o trabalho assim fica difícil produzir com vontade e criatividade.

Dois exemplos práticos: a jornalista Andy, de O Diabo Veste Prada (2006), e o vendedor Chris Gardner, de À Procura da Felicidade (2006); nesses dois filmes vemos pessoas que se tratam de um jeito muito específico com relação ao trabalho e ao trabalhar. Andy, interpretada por Anne Hathaway, se compromete a um trabalho muito distante de sua essência, seus valores pessoais e todo o seu jeitinho de ser para ganhar experiência e conseguir atuar na área que realmente gosta. Isso a desgasta e altera toda sua vida de um jeito que não encaramos como sério por conta do teor cômico do filme.

Já no segundo caso vemos um recorte de um período duro da vida de Chris Gardner, na pele de Will Smith, antes de ser um empresário renomado mundo afora. Na verdade, o longa-metragem é uma adaptação de sua biografia (que leva o mesmo título); é uma história realmente chamativa e comovente, de superação e firmeza a um propósito de vida. A saber, perseverar em meio a tantas ausências e cuidar do filho – na época, com dois anos ao contrário do mostrado no filme. O programa de estágio no mercado das ações foi uma forma inteligente de aproveitar sua habilidade com números.

Percebe que enquanto Andy se afastou, o Chris se aproximou cada vez mais de si mesmo a partir do trabalho? Cada um, por motivos específicos, é claro. O trabalho não é o fim, mas a ferramenta, lembra-se? Essas duas histórias nos mostram o quanto vida pessoal e vida profissional são as faces de uma mesma moeda: nossa identidade. Se envolvidos num atividade desprazerosa e sem sentido para nós, adoecemos. Ficamos mais impacientes e desmotivados; os dias se tornam apenas quadradinhos no calendário e a vida parece acontecer só no final de semana. Se o trabalho que desempenhamos exige indiferença a quem somos, no que acreditamos e ao que queremos então algo errado está acontecendo.

Um filósofo chamado Albert Camus uma vez comentou que o trabalho desprovido de alma, ou seja, que não tem nada de nosso nele, sufoca a vida. Acredito eu que ninguém queira morrer assim por sufocamento; seja fisicamente ou emocionalmente, é uma morte agonizante. Por isso a importância de processos como o coach e a orientação profissional: num período em que temos tanto de tudo pode ser um desafio agir como o Chris Gardner ou mesmo se arriscar a experimentar como a Andy. O medo do incerto limita tanto quanto o medo de ser o que se é, um princípio básico que conduz ambos os filmes.

Essas duas formas de quebrar com esse medo ou a insegurança, realizadas aqui na Lince aliás, ajudam pessoas a encontrar não um emprego, mas a construir sua trajetória profissional a partir do que são em sua essência: planejadores, cuidadores, criadores, educadores e por aí vai. E nesse meio entra de tudo: de afeto a comidas, de peças de roupa a peças de automóvel, de pessoas a animais. Nossa relação com o trabalhar, no fim das contas, é uma relação com o outro também. Daí a importância de cultivarmos quem somos, nossa saúde física e mental, pois o melhor trabalho do mundo, independente de cargo, nasce a partir dessa insistência. A felicidade também.

 

 

Thiago Barbosa cultiva felicidade nas pessoas que cuida e em si mesmo sendo psicólogo, redator e Consultor Associado na Lince. @psicologothiagob