Foco, força, fé e flow

08/04/2019

 

Foco, força e fé. Por mais clichê que possa parecer, o nosso fazer é realmente o resultado da relação entre esses três. Esse ditado caiu no gosto de muitos e virou uma espécie de mantra motivacional supersaturado em redes sociais e academias; ao que parece, quando repetido com disciplina seria a causa de alguma conquista interessante ou no mínimo uma hipertrofia muscular digna de post em rede social.

Acontece que o sentido original do ditado se perdeu com o modismo. Na verdade essa frase é um lembrete do nosso papel ativo em construir nosso dia a dia; estabelecer um foco, alimentar a nossa determinação e exercitar o que faz sentido aos nossos olhos requer um movimento só nosso. É uma responsabilidade especial, envolve montar um ecossistema que nos potencialize e promova o nosso flow. “Como assim?”, você pergunta.

Vamos por partes. O flow tem sido alvo de pesquisa de psicólogos há pelo menos quatro décadas a fim de se entender o impacto de uma experiência realmente agregadora em nossa saúde; quanto melhores elas são, mais produtivos ficamos e, por extensão, mais felizes. É um ciclo óbvio, sabemos, mas o interesse está nessa experiência verdadeiramente ótima que provoca algo diferente em nós; o aprender de si mesmo talvez seja o principal e o mais poderoso ganho de uma vivência tão fluida (daí o nome em inglês, que significa exatamente fluidez). É impossível existir alguém que não tenha passado na vida por uma experiência realmente prazerosa e agregadora.

Quando estamos num estado de flow nos envolvemos por inteiro em algo, seja pela tranquilidade ou pela euforia que esse algo nos causa. Há uma série de acontecimentos cerebrais que tornam a concentração maior e, ironicamente, alteram a percepção – o tempo parece passar mais rápido. É o que uma boa conversa provoca, por exemplo; também vemos isso acontecer em qualquer tipo de processo criativo. Como um mergulhador que descobre novas formas de vida no fundo do mar, o flow tem tudo a ver com esse “ótimo inesquecível” da experiência; ela em si é a recompensa e não o que resulta dela.

Acredito ser muito provável que se nosso sistema educacional fosse fluido assim e focasse no aprender ao invés da aprovação, seríamos pessoas diferentes: teríamos menos medo da crítica e seríamos mais fazedores de nossos propósitos ao invés de sonhadores sempre insatisfeitos. Somos ensinados de que só vale a pena mergulhar se encontrarmos o tesouro no fundo domar e com isso acabamos não nos permitindo molhar os pés seja pelo medo de perder tempo ou acuados pela crítica. É o que acontece com filhos que cursam a faculdade dos sonhos de seus pais, pessoas que não se autorizam o “não” e se sobrecarregam de tarefas e líderes que presumem ser a vulnerabilidade, ou o desconhecimento, sinal de fracasso.

E aí vamos à aplicabilidade deste artigo: como construir um ecossistema que promova nosso flow? Antes de tudo é preciso entender que nossas emoções estão ligadas diretamente aos nossos resultados; eles, por sua vez, acontecem não em meio às situações e pessoas diversas, mas através de situações e pessoas específicas. Quando nos cercamos de pessoas fluidas, que se enxergam naquilo que fazem e não tem medo de mergulhar, nos inspiramos com sua certeza e isso realmente ajuda a enxergar melhor quais os elementos que são capazes de dar maior sentido à nossa existência (foco), quais experiências queremos buscar (força) e o que precisamos construir para que elas aconteçam (fé). É uma alternativa válida enquanto não se mergulha sozinho. Seguiremos conversando sobre este assunto mais à frente. Por ora, fica aqui o convite para nossas próximas aulas de mergulho.

 

 

Thiago Barbosa tem se deslumbrado com seus mergulhos. É Consultor Associado na Lince e seu equipamento é a psicologia, a literatura e a escrita. @psicologothiagob

 

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Muito flow para todos nós, Thiago! Arrasou.