Empresa adoece?

02/05/2019

 

Sempre gostei de como a literatura consegue representar bem o que acontece no cotidiano, às vezes simbolicamente e outras como ele ocorre de fato. A você trago desta vez um pouquinho de mitologia grega associada ao mundo das empresas com a história de Édipo Rei, escrita por Sófocles, para conversarmos sobre um risco que acontece onde há pessoas que é o adoecimento. Ok, é uma tragédia um tanto batida, reconheço, especialmente devido ao aviltamento de sensacionalistas em cima da teoria psicanalítica construída por Freud, já que ele usou a referida peça na sua argumentação sobre o inconsciente e emoções reprimidas.

Acontece que na peça vemos o destino trágico de um jovem que, ao tomar o lugar do pai por assassiná-lo e descobrindo-se casado com a própria mãe, reage de forma drástica à vida cegando a si mesmo. E o que isso teria a ver com o mundo corporativo e empresarial?, você, com toda a razão e (espero eu) curiosidade inquieta, deve estar se perguntando em seu assento tão confortável. Acontece que o ápice dessa tragédia grega muito se assemelha ao que vem acontecendo nas organizações; o adoecimento lento e diário das relações tem provocado um desgaste que beira o grego, somatizando o cansaço mental em fadiga, estresse, buracos na comunicação e a um nível extremo a síndrome de Burnout – condição em que o indivíduo já não tem um mínimo de saúde física e mental para executar seu trabalho e tolerar gente ao mesmo tempo.

O adoecimento mental é um fruto amargo de uma rede interligada de fatores que vão desde o que é da ordem da genética até às condições sociais, econômicas e políticas do país e (tão importante quanto os outros fatores) a relação dele com demais países. Então perceba que nosso estado emocional não é resultado de um emaranhado de sentimentos aleatórios: somos reflexo de uma época. E a nossa tem sido marcada por muitos excessos. Gerir pessoas num contexto assim requer uma boa dose autoconhecimento dos líderes para não se deixarem consumir e ao mesmo tempo ter sensibilidade para enxergar a saúde de sua equipe em meio às responsabilidades e demandas da vida. O princípio básico é que pessoas não deixam, em nenhum momento, de serem pessoas nessa rede de influências e afetos psicológicos.

Como escreveu Sófocles, ainda em Édipo Rei, “o conhecimento de uma coisa pode revelar-nos muitas outras, quando entreluz um raiozinho de esperança”. Traduzindo: uma comunicação esburacada onde se sente murmúrios e fofoca, o desânimo e a desconcentração, a impaciência e o isolamento, até mesmo o ceticismo são revelações de um adoecimento que não é de agora e nem deve ser resumido à personalidade do colaborador. O líder que ignora essas revelações no cotidiano age como na peça de Édipo onde os personagens são regidos por uma profecia autorrealizadora sinistra em que o temperamento, não sendo mais que mera reação a um acontecimento, torna-se destino. Resultado: desastre.

É justamente pela condição de gente que o líder não precisa ser um oráculo detentor de todas as respostas como nos contos gregos; isso é assumir um lugar de muita intensidade. Ter em mente o propósito da empresa de forma clara já muito ajuda. Assumir-se como alguém de expectativas, talvez alguns anseios também, tanto quanto qualquer outro da equipe é um diferencial em gestão, pois humaniza o trabalhar. Uma empresa se faz saudável quando há essa identificação entre as pessoas que a constroem em toda a sua hierarquia – uso o termo “construir” por acreditar que uma organização é muito mais do que a soma de suas partes.

Ela é uma construção diária em que todos nela têm a oportunidade de exercitar os princípios que guiam o trabalho. Princípios esses que são extremamente válidos de serem resgatados na forma de programas de treinamento e desenvolvimento – afinal, recordar é viver, não é mesmo? Mais do que investimento em produtividade e atendimento, é uma forma valorizar os raiozinhos de esperança, de investir nas virtudes,que caracterizam cada membro da equipe e lhes dar a chance de serem muito mais do que seus cargos e colocarem seus talentos a favor da organização e do grupo. Isso gera contentamento, satisfação e orgulho. É a tal da prevenção em saúde, já ouviu falar? Profissionais da saúde adoram. Líderes conscientes também.

 

 

Thiago Barbosa se reinventa em meio aos temperamentos e temperos que sente por aí. É Consultor Associado na Lince. @psicologothiagob

 

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Fernanda

Muito pertinente essa reflexão. Parabéns Thiago, vc nos provoca e convida a reflexões muito profundas e instigantes