Sobre flow e produtividade: como se manter seguindo?

17/06/2019

 

Estamos com problema de fluxo e não é de hoje. Na verdade, desde antes da reforma na Avenida Leitão da Silva o tráfego tem sido outro, tanto pela capital quanto em nós. Ao contrário da obra que virou uma saga para o capixaba, pela lentidão mesmo, o restante do mundo tem acontecido rápido demais e nos cansando também. Vamos trabalhar pensando na próxima reunião daqui a dois dias, almoçamos olhando mais para o celular atento à chegada de mensagens do que ao nosso próprio prato e encontramos o final de semana já preocupados com o prazo na próxima terça-feira. O gosto da comida já ficou obsoleto na hora de pagar a conta.

Falar de fluxo é difícil por nos obrigar a interrompê-lo por um pouquinho. Para quem gosta de categorizar as circunstâncias vai encontrar na explicação do Zygmunt Bauman, sociólogo, algum regozijo talvez: são tempos líquidos de tão inconstantes. A evolução das tecnologias transformou nossa visão de mundo, a percepção dos acontecimentos, das pessoas e dos comportamentos. Discussões importantes sobre ética, tolerância, direitos humanos, capitalismo consciente e ecologia se enriqueceram. A comunicação é instantânea, o acesso à informação é maior e mais rápido, mas a ansiedade agora é por onde encontrar nosso próprio encaixe em meio a tanto de tudo que acontece o tempo todo.

São muitas as distrações que atrapalham nosso fluxo interno. Raridade hoje em dia encontrar alguém que consiga se dedicar cem por cento a qualquer coisa sem ao menos dar uma olhadinha na tela do celular. Em psicologia positiva essa dedicação total a uma atividade é chamada de flow, onde toda a percepção, criação e o fazer acontecem ao mesmo tempo num estado que nenhuma distração atrapalha. Sim, juro, é possível! Inclusive, para quem caminha com a gente deve se lembrar que já conversamos sobre isso antes, bem aqui. Esse estado, o flow, é bem mais visível em pessoas dedicadas às artes por precisarem dela para se expressarem de um jeito que só elas conseguem dizer.

Foi por isso que, para continuar a conversarmos sobre o assunto, decidi perguntar a uma amiga desenhista e ilustradora sobre esse estado de total dedicação e produção. Com sua naturalidade de sempre, Clara comentou que seu mergulho é tão profundo que já chegou a passar seis horas seguidas desenhando; ou seja, meio período de trabalho. Minha surpresa maior foi quando Clara disse não ter sentido fome ou sede quando isso aconteceu! A palavra que usou para definir esse seu empenho, veja você, foi justamente a distração. Na verdade, qualquer atividade feita com prazer, por mais trabalhoso que seja, é interpretada por nosso cérebro como uma distração. E isso acontece com todos os tipos de gosto pessoal: números, costura, contar histórias, pesquisar, exercício físico, filmes…

Estar tão em fluxo assim, como no caso da Clara, é difícil quando estamos em algo que não conversa conosco. Um levantamento feito pela Brands2Life em parceria com o LinkedIn revelou que mais de 60% dos brasileiros estão infelizes em seus empregos e que medo é o motivo para permanecerem. Não se há como julgar, são tempos líquidos. Incertos. Mas o outro lado da moeda é que estando amedrontados de explorar nossa própria essência, a distração que mais vale a pena, nos podamos pela via do autoflagelo. Nos diminuímos para tentar nos encaixar nas opiniões de outros (limites terríveis) e a esse tipo de condição, vamos combinar, palavra nenhuma ou antidepressivo dá conta.

Num mundo de tanto, é natural haver dificuldade em filtrar qual distração será a mais benéfica para o nosso crescimento e aí cabe construir momentos de pausa para enxergar aquilo que nos impulsiona. Uma estratégia emocionalmente inteligente é escrever no papel o que estamos buscando sentir – mais calma, garra, inspiração – para agir com mais segurança em nossos projetos pessoais; e aqui é interessante que estes sejam escritos também. É importante que não se tenha medo de usar as palavras, pois só assim ficará claro qual tipo de conhecimento será preciso buscar e como. Seu desafio começa agora: mergulhe. Mas cuidado com as distrações.

 

 

 

Thiago Barbosa tem se distraído cada vez mais mergulhando no que faz sentido. É Consultor Associado e Redator na Lince. @psicologothiagob

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