Quer se autossabotar? Reclame mais!

27/05/2019

 

Em tempos de excesso, leveza é mais do que virtude: é necessidade. Acreditar nisso já deixou de ser regalia exclusiva de terapeutas e líderes; para o melhor aproveitamento da vida, ou pelo menos não demonizar as segundas-feiras, para se produzir com mais orgulho e não terrorizar o erro, ser leve é a chave. Não que seja assim tão fácil, sabemos. É uma musculação emocional que envolve mudança de perspectiva, a nutrição da esperança enquanto se lida com os imprevistos e praticar a autocompaixão para não cair no erro de enxergar vulnerabilidade como fracasso.

Dias atrás li uma frase que cativou muito minha atenção, um ditado pessoal cuja criadora o usa como um amuleto para uma vida mais leve: “tem gente que vem ao mundo de caminhão, tem gente que vem de bicicleta”. Sabe o que isso significa? Que, no fim das contas, o modo como transitamos por aí é questão de escolha. Há quem tenha como assinatura pessoal um jeito pesado e queixoso de ser, que pinica a boa vontade das pessoas ao redor. São eternos insatisfeitos que não entendem que a falta existe para nos incentivar à criatividade e não à crítica. Pessoas assim lembram mais das rachaduras da calçada do que da água de coco ao fim da caminhada. Conheço uma senhora que frequenta a academia com regularidade e sempre que a cumprimentava queixava-se dos exercícios que realizava tão cedo e, veja você, por escolha própria. Depois que passei a parabenizá-la por essa dedicação ela tem ficado mais quieta e reservada comigo, preferindo queixar-se com o professor ou outro alguém acostumado. Reclamar vicia. E se não nos cuidarmos, vira traço de personalidade.  

Engana-se quem acha que a vida dos reclamões é fácil. Não existe alívio ou ganho para eles: suas noites são sempre mal dormidas, as pessoas são fonte certa de decepção e o dia é só mais um punhado de problemas a resolver. Na realidade, é a isso que se afeiçoam: o problema.

Lembro-me muito bem de uma atividade simples na graduação em que a professora despejou no meio da sala de aula várias pedrinhas de brita. Depois que escolhemos a que mais chamava nossa atenção, ela pediu que caminhássemos pela sala com a pedrinha escolhida dentro do calçado. A coisa rendeu risos junto ao óbvio desconforto e incômodo que andar nos causava. Obedecemos – vai que valia alguma nota? Só percebemos a profundidade da lição ao final: a pedra no calçado representava nossos problemas que irão, de alguma forma, sempre caminhar com a gente. Por inúmeros motivos, há quem se esqueça de que não é preciso se calejar tanto. Se isso acontece nossa caminhada vira um incômodo por ela mesma.

Ao focarmos somente na pedra, esquecemos de todo o resto: de rir, de estudar o desconforto, de se amparar em alguém que com certeza também tem seus calos e, o mais importante, de apostar na nossa criatividade para gerir um desafio. Afeiçoados às pedras nos tornamos pessoas monótonas, pais incuráveis, funcionários apagados e líderes inflexíveis. Pessoas assim só aspiram, nunca inspiram.

A professora, esperta (e talvez um pouquinho mais calejada que a gente), decidiu ser criativa e autocompassiva: carregava sua pedrinha no estojo ao invés de calçá-la para, assim, lembrar de que os problemas não devem definir seu caminhar.

A reclamação é, na verdade, um clamor pelo diferente ao que foi idealizado por nós primeiro (re.clamor.ação). Natural. Porém, ao torna-se hábito pela facilidade que é apontar dedos, se transforma numa saída emocional pela tangente. Uma autodispensa de alguma culpa ou responsabilidade, concreta ou afetiva. É um jeito muito eficiente de não se entrar em questões mais profundas de si mesmo. Afinal, sem reclamar o que fica para o reclamão? E outra: quem fica?

 

 

Thiago Barbosa tem enxergado melhor as coisas por aí, e em si mesmo, com o regime da reclamação. É psicólogo, redator e  Consultor Associado da Lince. @psicologothiagob

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Excelente reflexão!