Sobre responsabilidade afetiva no mundo corporativo

28/06/2019

 

Helô se considera uma professora pulso firme, mas não consegue disfarçar o encanto quando um de seus alunos finalmente entende o misterioso x da questão. Só que sentiu-se culpada por gerar outras tantas dúvidas naquelas cabecinhas quando a viram chorar e sair da sala de aula. Naquele dia, a caminho da escola onde trabalha, sofreu uma tentativa de roubo traumatizante. Seu choro, choque e desespero não a isentou de uma advertência por atraso de sua pedagoga, que pediu que parasse com aquilo para não constranger os alunos.

Responsabilidade afetiva tem sido um assunto recorrente no campo dos relacionamentos amorosos. Acontece que nossa capacidade de agência e de alimentar as formas de relacionar para que então o amor dure tem sido algo terceirizado, ou seja, sempre esperado do outro. Mas e no mundo corporativo?, me perguntei. O horário comercial nos isentaria de considerar a história, as marcas e a opinião desse outro? A empatia só funciona no happy hour?

A consciência de que nossas atitudes impactam o outro de alguma forma é algo recente na história humana, uma noção criada com o fim da Idade Média. Nessa época identidade, trabalho e função social eram uma coisa só. A população inteira de uma aldeia tinha o mesmo tipo de atividade, os camponeses todos produziam o mesmo produto e não era preciso gastar tanta energia na comunicação e conexão humana.

Hoje, quatro revoluções industriais depois, comunicar é dom e conexão é desafio.  Nesse cenário, treinar e desenvolver pessoas é impulsionar o que nos caracteriza como gente: empatia, a garra, a paciência, a resiliência, o otimismo e a esperança. O objetivo? Não terceirizar qualquer coisa que tenha a ver com o relacionamento, amparo e ação. Peter Drucker, o pai da administração moderna, certa vez comentou que assumir responsabilidades pelos relacionamentos é imprescindível para a gestão, a produtividade e a evolução na carreira. Um baita desafio, afinal isso é mais que se mostrar: é se entregar ao outro e a tudo que pode vir disso. Nem todos estão preparados para esse tipo de compromisso.

Trazer essa responsabilidade afetiva para o mundo corporativo deveria ser mais rotineiro.”, foi o que me disse Meyriany Pereira, uma das consultoras associadas da Lince. Para Meyri, como a chamamos na sua graça, o assunto ainda não é pauta nas organizações e isso esburaca a gestão e a credibilidade da empresa: “Imagine você concorrendo a uma vaga de emprego e não ter o retorno do seu processo de seleção. Onde está a responsabilidade afetiva?”.

Compromisso com as relações, confiança, comunicação. São contornos que moldam uma gestão humanizada. Quando Kelwin, coordenador numa empresa de tecnologia, comentou sobre ter mudado sua sala de trabalho para outra que respeitasse a condição de um determinado membro de equipe atravessado por desafios pessoais, foi um consolo. Para ele, “ser empático com o outro e pensar em como ele vai estar se sentindo para o bem dele” é garantir alinhamento e, portanto, a performance da equipe. “A pressão de trabalho não vem só de demandas e sobrecarga. Ela vem de gatilhos emocionais, de pequenas palavras que alimentam sentimento de ansiedade e medo”. Completando a fala de Kelwin, segurança também.

Para o seu alívio, Helô é uma personagem fictícia. Mas sabemos que esse tipo de angústia não é algo inventado nem longe da nossa realidade. Acontece nos mais diversos segmentos e corporações. Humanizar uma empresa e sua gestão envolve primeiramente humanizar-se, apostar na nossa capacidade de agência e ver que o outro em suas tantas formas (cliente, filho, colega de equipe, cônjuge, funcionário) é compromisso nosso. Responsabilidade afetiva.

 

 

 

Thiago Barbosa acredita na humanização de gente e empresas também. É Consultor Associado e Redator na Lince. @psicologothiagob

1
Deixe um comentário

avatar
1 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
1 Comment authors
Danuza Recent comment authors
  Subscribe  
newest oldest most voted
Notify of
Danuza
Visitante
Danuza

Otimo texto.
Me assusta cono as pessoas nas corporaçoes criam mais problema,diante de um questao, do que soluçoes. Como é importante pra alguns ou muitos gestores, culpabilizar um funcionario sem ouvir curcustancias as quais incidebtes se deram.
Estamos rodeandos de gente wue ouve mas não escuta. Gente que ve mas não encherga.